Apologia à violência em colégio cívico-militar de Curitiba pode render ação por dano moral coletivo

Apologia à violência em colégio cívico-militar de Curitiba pode render ação por dano moral coletivo

Caso denunciando pela APP-Sindicato mobiliza organizações e autoridades para barrar as violações e ameaças da militarização da educação e responsabilizar os(as) envolvidos(as)

Estudantes de Colégio Cívico-Militar em Curitiba entoam canto que faz apologia ao ódio e à violência. Foto: Reprodução

Após a repercussão nacional do vídeo denunciado pela APP-Sindicato em que estudantes entoam um canto com letra que faz apologia ao ódio e à violência em um colégio cívico-militar de Curitiba, diversas autoridades e organizações acionaram instituições de defesa da sociedade. As manifestações se somam às representações que a APP-Sindicato fez ao Ministério Público do Paraná (MPPR), à Defensoria Pública e à Controladoria Geral do Estado.

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Referência na defesa dos direitos humanos e da democracia, o Instituto Vladimir Herzog fez uma representação ao MPPR pedindo a investigação do caso, a responsabilização dos(as) envolvidos(as) e avalia ingressar com ação por dano moral coletivo, com recomendação de medidas reparatórias e eventual ação civil pública. 

“O caso do colégio de Curitiba é a expressão máxima do perigo que o modelo cívico-militar representa para a educação democrática”, indica a representação. “Em vez de combater a violência, ele a institucionaliza sob a forma de doutrinação, apologia ao extermínio e opressão.”, aponta o instituto. 

Para o Instituto, o caso é classificado como abuso de poder e prática atentatória aos direitos fundamentais dos(as) estudantes. “Tortura, execução sumária e eliminação de indivíduos em territórios periféricos configura, em primeiro plano, o delito previsto no art. 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que criminaliza o ato de ‘submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento’”, diz a entidade.

Além da investigação, o instituto pede ao MPPR a apuração da responsabilidade administrativa, civil e penal da direção e agentes militares, com aplicação de medidas cautelares para impedir novas práticas de violência simbólica, psicológica ou pedagógica contra os(as) estudantes.

Autoridades

O conteúdo do vídeo também repercutiu na Câmara dos Deputados. O deputado federal Tadeu Veneri (PT) se posicionou contrário ao modelo e informou que entrou com medida judicial na Vara da Infância e da Juventude com pedido de liminar para suspender atividades extracurriculares ou disciplinares de cunho militarizado no colégio onde a situação foi registrada. O parlamentar ainda cobrou do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente de Curitiba a adoção das medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proteção dos(as) direitos dos(as) estudantes.

Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), a deputada estadual Ana Júlia (PT) também acionou o Ministério Público e a Defensoria Pública para garantir investigação imediata, a responsabilização dos(as) envolvidos e a proteção dos(as) estudantes. “Esse episódio não é isolado, faz parte de um modelo que substitui educação por autoritarismo e que nunca teve amparo na legislação. Seguiremos denunciando, pressionando e lutando para que esse projeto seja encerrado no Paraná”, disse a parlamentar.

Repercussão

Publicado pela APP-Sindicato nas redes sociais, no final do mês de novembro, o vídeo mostra estudantes do Colégio Estadual Cívico-Militar João Turin, em Curitiba, entoando uma música utilizada pelo Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE). “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão”, diz um dos trechos cantados pelos alunos(as) enquanto marcham na quadra da escola, sob observação de um militar aposentado.

“Absurdos como esse do vídeo não são casos isolados. Desde o início deste programa, temos recebido e denunciado ocorrências semelhantes e até piores em escolas que adotaram o modelo cívico-militar. É chocante ver que a escola pública esteja sendo usada para promover uma doutrinação ideológica extremista, que prega o ódio, a violência, o massacre e o extermínio de comunidades periféricas. Isso é muito grave e reforça a nossa luta contra a militarização da educação e a urgência do Poder Judiciário determinar o fim desse programa ilegal e inconstitucional”, afirma a presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto.

O escândalo também gerou reações na imprensa e nas redes sociais. O assunto foi pauta nos principais jornais de abrangência regional e nacional. O vídeo divulgado pela APP-Sindicato foi replicado em diversas páginas, atingindo milhões de visualizações. Na maioria dos comentários, os(as) usuários(as) expressam espanto ao descobrir que a realidade das escolas cívico-militares é diferente do que o governador Ratinho Jr. (PSD) mostra na propaganda.

Sem qualificação

As escolas cívico-militares começaram a funcionar no Paraná em 2021, após consultas realizadas no ano anterior marcadas por casos de autoritarismo e desrespeito às comunidades escolares. A última consulta ocorreu em 2023 e atualmente o estado possui 312 colégios militarizados, mesmo após o presidente Lula encerrar, em 2023, o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), criado em 2019 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O programa prevê a contratação de policiais militares aposentados para atuar e interagir com os(as) estudantes nas escolas. Os(as) militares são chamados de monitores militares, mas em muitas escolas são conhecidos como diretores(as) militares, em sobreposição à autoridade dos(as) profissionais da educação.

 

Esse conflito também se demonstra na remuneração. Ratinho Jr. paga aos militares a quantia mensal de R$ 5,5 mil. Mesmo não tendo formação ou conhecimento sobre processo pedagógico, educação e interação com adolescentes e jovens, eles recebem mais do que os(as) professores(as), que têm o piso atual fixado em R$ 4,9 mil, para jornada de 40 horas semanais, e mais ainda do que os(as) funcionários(as) de escola que tem formação e qualificação para interação com os estudantes, os Agentes II, cujo piso salarial é R$ 4 mil.

Não à militarização

Desde o anúncio do modelo, a APP-Sindicato tem atuado na resistência, denunciando os problemas da iniciativa para estudantes, educadores(as) e para a qualidade do ensino. O sindicato também tem acompanhado e notificado casos de violência nas unidades militarizadas.

>> Saiba mais: Escola Não é Quartel: 7 motivos para dizer não às escolas cívico-militares

Uma reportagem publicada em 2024 pela APP-Sindicato ouviu estudantes indignados(as) com as mudanças impostas a partir daquele ano após em escolas que abandonaram o modelo democrático e passaram a adotar o cívico-militar. Os(as) adolescentes relataram que foram obrigados(as) a cumprir uma série de regras estéticas consideradas abusivas e que não possuem qualquer relação com o ensino.

“Me sinto péssimo, porque eles estão querendo mudar a personalidade das pessoas. Eles falaram que quem não tirar os piercings e os bonés vai ter que mudar de escola. O ambiente no colégio está péssimo. A gente vai para a escola estudar e aprender, mas chega lá, parece uma prisão”, contou um estudante.

As regras constam no manual das escolas cívico-militares. O documento alega que a padronização do cabelo e a proibição de acessórios seriam “aspectos educacionais relacionados com a higiene, boa aparência, sociabilidade, postura, dentre outros”. Mas, para os(as) estudantes, a prática é abusiva e promove discriminação contra a identidade de grupos sociais, como pessoas negras e LGBTI+. 

Inconstitucional

Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), movida pelo PT, PSOL e PCdoB, pede que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare a inconstitucionalidade da Lei 20.338/2020, que criou o Programa Colégios Cívico-Militares do Paraná, e do art. 1º, inciso VI, da Lei 18.590/2015, que proíbe eleições para direção nas escolas cívico-militares.

Em manifestação no processo, a Advocacia-Geral da União (AGU) considerou que o programa de escolas Cívico-Militares de Ratinho Jr. é inconstitucional. O parecer da AGU argumenta que estados não podem criar um modelo educacional que não esteja previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Além disso, o órgão ressalta que a Constituição Federal não prevê que militares exerçam funções de ensino ou de apoio escolar. O relator do caso no STF é o ministro Gilmar Mendes.

 

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