A importância da memória e dos(as) professores(as) de História

A importância da memória e dos(as) professores(as) de História

Artigo de Cláudia Gruber

Na escola há um costume: trabalhar com datas comemorativas. Algumas bem tradicionais e conhecidas, como os feriados nacionais ou o (polêmico) Dia do Índio, mas há aquelas que raramente são lembradas, mas que deveriam constar neste repertório. Uma delas é o 9 de novembro:  Dia Internacional Contra o Fascismo e o Antissemitismo.

Em 1938, o mundo via o início do que seria uma das piores partes da História: começava o Holocausto. Na madrugada de 9 para 10 de novembro, na Alemanha, aconteceu a “Noite de Cristal”, quando sinagogas foram incendiadas, cemitérios judeus profanados, milhares de lojas saqueadas, centenas de pessoas morreram e se iniciou a deportação de 35 mil judeus, aproximadamente, para os campos de concentração.   

O Nazismo mostrava sua verdadeira face: fascista e antissemita; matando mais de seis milhões de judeus, ciganos, negros e outras etnias durante a II Guerra Mundial. Mas, muita gente titubeia quando tenta explicar os termos “fascista”, “semita”, “antissemita”, pois há alguns equívocos e confusões que comumente fazemos, por não termos prestado atenção suficiente nas nossas aulas de História ou talvez por não termos sido mais curiosos a respeito do assunto.  Outros, nem tentam explicá-los ou nem interesse demostram pelo assunto, por achar que não pode lhes afetar: “é coisa do passado.”

Curiosa que sou, fui buscar saber mais sobre a data e  não me surpreendi ao ver tantas coisas em comum, hoje, por aqui sobre o tal fascismo.    

Mas antes: semita é uma designação dada àquele que é judeu. Povo que carrega historicamente em si a dor, uma culpa que não lhe pertence e por isso, foi visto como desleal e vítima de um racismo desmedido pelo nazismo. Hitler buscou, de todas as maneiras, destruí-los, bani-los da face da Terra, pois queria criar uma “raça pura” de cidadãos, uma raça dita ariana. Não só judeus, mas também negros, ciganos, homossexuais poderiam manchar, sujar o surgimento dessa raça, por isso o antissemitismo. 

Já o fascismo, regime político ditatorial, centrado nos conceitos de nação e raça, é muito mais complexo. Num primeiro momento, o associamos a Benito Mussolini (Itália, 1922), seu principal representante durante a II Guerra Mundial. Não só pelos “modus operandi”, mas pela simbologia criada pelo Duce para conduzir o movimento (os camisas pretas, motociatas). Porém, o fascismo encontra-se espalhado pelo mundo, já que é facilmente adaptável a qualquer regime de governo, pois ele não necessita de todas as suas características para sobreviver. 

Para entendermos melhor esse “monstro”, fomos buscar auxílio num pequeno, mas significativo livro: O Fascismo Eterno, de Umberto Eco.  De forma extremamente didática, o autor nos traça, com toda a propriedade, um panorama histórico e prático daquilo que ele chama de Ur-Fascismo ou Fascismo Eterno. Mostra-nos suas características (arquétipos),muitas vezes contraditórias e antagônicas entre si, mas, que podem fazer um estrago enorme por onde passam. Tendo vivenciado o fascismo italiano, diz ele que basta haver uma dessas características num sistema de governo para que isso se expanda,  contamine  e adoeça toda uma sociedade.  

Vejamos agora  o que o autor classifica como arquétipos do Ur-Fascismo: 

  1. Tradicionalismo (“Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão”); 
  2. Recusa da modernidade (“Eu decidi não tomar a vacina. Eu estou vendo novos estudos, a minha imunização está lá em cima, para que vou tomar a vacina?”)
  3. Ação pela ação, sempre com a suspeita em relação ao mundo intelectual  (“O que se faz em muitas universidades do Brasil, o que o estudante faz? Faz tudo, menos estudar”); 
  4. Exacerbação do medo às diferenças, levando ao racismo (“Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais”); 
  5. Classes médias frustradas, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos (“Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita”); 
  6. Nacionalismo exacerbado que leva à xenofobia (“A escória do mundo está chegando ao Brasil como se nós não tivéssemos problema demais para resolver”); 
  7. Incapacidade de avaliar com objetividade a força do inimigo (“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”)
  8. Pacifismo é algo mau porque a vida deve ser uma guerra permanente (“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá”); 
  9. Desprezo pelos fracos, creem ser sempre os melhores cidadãos do país (“Vocês não ficaram em casa. Não se acovardaram. Temos que enfrentar os nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”); 
  10. O heroísmo é a norma, o herói/líder é um ser excepcional (Imorrível, Imbrochável e Incomível); 
  11. Transferência  da vontade de poder para questões sexuais, com o desdém pelas mulheres e homossexuais (“Eu jamais ia estuprar você porque você não merece/Prefiro ter um filho morto em acidente do que quer um filho homossexual”); 
  12. Os indivíduos enquanto tal não têm direitos, o povo é somente um ficção teatral (Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso.);
  13. Os textos fascistas se baseiam em um léxico pobre e uma sintaxe elementar, limitando o raciocínio crítico (“Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”).

Eco finaliza sua obra fazendo uma convocação a nós, leitores: temos o dever de apontar o dedo para estes arquétipos, desmascarando-os para evitar que eles renasçam onde menos esperamos. Eles podem vir da maneira mais sutil e disfarçada possível.

Infelizmente, vimos esses arquétipos se alastrando e se enraizando em nosso país nos últimos anos, não apenas com discursos raivosos, preconceituosos, mas também com práticas envoltas em muita crueldade, que já levaram à morte milhares de pessoas. Mas, poderemos substituir tais arquétipos por outros como: democracia, liberdade, solidariedade, educação, igualdade, esperança e voltar a viver com um pouco mais de paz. 

>> Dica de Leitura: 

ECO, Umberto. O Fascismo Eterno. Rio de Janeiro: Record. 2018.

 

**Por Cláudia Gruber, professora da rede estadual e secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato.

 

 

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