Desabafo da atriz Geisa Costa: A pergunta que não quer calar
Eu, Geisa Costa, atriz londrinense – radicada em Curitiba desde 1993 – sempre tenho defendido na minha condição de cidadã e mulher negra, o desejo de resgatar, perpetuar e valorizar as tradições e cultura de nossos antepassados africanos. Por isso, ainda que em passos lentos – “na medida do possível (permitido)” -, procuro levar à contribuição da população negra afro-brasileira, por meio das artes e de pesquisas, vivências, oficinas e contação de histórias nas escolas. E abordando as temáticas determinadas pela Lei 10.639/03, ou seja, contribuindo para que esta seja executada. A referida lei é uma antiga reivindicação dos movimentos nacionais de consciência negra na busca por reconhecimento, valorização e afirmação dos direitos.
Sabemos que o processo da construção, não se dá de maneira fácil e rápida. Ainda temos que negociar nossas ideias de modo mais harmonioso e conjuntivo, respeitando as diferenças e habilidades de cada um. Mister é que sejamos não apenas dançarinos, mas criadores de nossa coreografia. Queremos que nossas crianças se valorizem e saibam valorizar nossa cultura, que tenham histórias para contar. Portanto, não poderia deixar passar em “branco” mais esse descaso.
Primeiro, o convite para participar do filme Besouro, depois, a satisfação em ajudar a contar de maneira digna, a história de um dos maiores capoeiristas de todos os tempos. E o prazer em representar o Paraná nessa mega produção com as bênçãos dos Orixás. Foram três meses de preparação intensa, mais um ano inteiro de espera, não só minha, mas de toda a comunidade ávida por conhecer Besouro. Além do orgulho dos capoeiristas em ver sua arte valorizada na telona.
Enfim, anuncia-se a estreia nacional, expectativas e adrenalina de quem acompanhou o blog do filme desde o início, esperando ansiosamente pelo lançamento. Decepção geral. Aqui na região sul, recebemos a noticia de que não teremos a exibição do Besouro e não há previsão se haverá.
Todos queremos saber o porquê. Do blog recebemos a triste informação, que diz o seguinte:
“E ATENÇÃO: Para a turma imensa de Curitiba que está perguntando por que o filme não estreou por lá, uma informação: porque os exibidores do Paraná não se interessaram. Aliás, de toda a Região Sul, apenas Porto Alegre está exibindo Besouro. Se você é de Curitiba, ou de qualquer outra cidade do Sul, e quer assistir ao filme num cinema perto de você, entre em contato com a Federação Nacional dos Exibidores Cinematográficos (Feneec), pelo telefone (21) 2242-5267 (em horário comercial) e manifeste sua vontade. No Rio Grande do Sul, a associação de exibidores locais atende no número (51) 2224-0877. Outra opção é fazer a solicitação diretamente no site do Cinesystem, um dos principais grupos exibidores da Região Sul. (http://www.besouroofilme.com.br/blog/?p=1850#comments)”
Sobre a participação do negro em Curitiba – O Bairro Rebouças, localizado na região central de Curitiba, tem este nome em homenagem ao engenheiro Antonio Rebouças. Afrodescendente nascido na cidade de Cachoeira, no interior da Bahia, formou-se em 1860 em engenharia, tendo antes bacharelado
Os irmãos André Rebouças (1833 – 1898) e Antonio Rebouças (1838 – 1991) foram abolicionistas e lutaram em defesa dos direitos sociais dos africanos e afrodescendentes. E muita gente que nasceu aqui no Paraná não conhece essa história. E muito menos que estes homens eram negros. Ainda há quem negue a existência de negros em Curitiba, mas existem e não são poucos.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46% da população brasileira é negra. No Paraná, esse índice é de 23%. Na região Sul do Brasil, o Paraná é o Estado que tem a maior população negra. Já temos registrados aqui, inclusive, mais de 80 comunidades quilombolas mapeadas.
O movimento negro está cada vez mais forte, organizado e atuante, buscando a sua identidade por meio das mais diferentes manifestações, com amplas discussões para a elaboração e a execução de políticas afirmativas em combate à discriminação da população negra, e outras etnias.
Curitiba e a invisibilidade do negro – Curitiba é considerada o termômetro cultural do Brasil, a capital de primeiro mundo. Se uma peça for sucesso por aqui, certamente será no restante do País.
Em
Só que dessa vez aconteceu ao contrário: por que será que Besouro não estreou aqui?
Será que não foi aprovado, pois se trata de um filme inspirado em fatos reais. Por que é uma história cinematográfica de aventura, paixão, misticismo e coragem sobre este personagem real que se tornou lenda? Será que é porque não parece um filme brasileiro. Não é comédia, não se passa em uma favela e não tem atores da Rede Globo nos papéis principais?
O filme é um incentivo aos educadores, sobretudo no que diz respeito à Lei 10.639/03. É uma oportunidade de resgatar a contribuição e auto-estima do povo negro brasileiro. Parafraseando Raul Seixas, ‘quem não tem colírio usa óculos escuros’. No entanto, se acaso o óculos for muito “escuro” cuidado para não bater a cara contra o muro.
Atenciosamente,
Geisa Costa
Um pouco sobre Geisa Costa – atriz, produtora, contadora de histórias. Terapeuta. Em 1983 iniciou no teatro com o Curso livre da Secretaria de Cultura de Londrina. Estreou no Grupo Delta de Londrina, com o espetáculo Gota D’agua – De Chico Buarque, com direção de Jose Antônio Teodoro, estreando em seguida com Toda Nudez será Castigada, de Nelson Rodrigues (1984/1987), com direção de José Antonio Teodoro, espetáculo que permaneceu por quatro anos em cartaz.
Desde 1993 em Curitiba, Geisa Costa atuou em vários espetáculos no Teatro de comédias do Paraná e Teatro Guaíra. ‘O Guerrilheiro da Inconfidência’, com direção de Lutero Almeida, ‘O Eterno Retorno do Cavaleiro Solitário’, com direção de Hugo Mengarelli, ‘Ópera Aída’ e ‘Ópera Colombo’, Ópera Pop Negra, com direção de Isidoro Diniz, entre outros, são alguns dos espetáculos que contaram com sua presença no elenco.
Em 2002 ganhou o prêmio Gralha Azul de melhor atriz coadjuvante pela atuação no espetáculo “A Casa do Terror 4′, a qual foi dirigida por João Luiz Fiani no Teatro Lala Schneider. Recentemente, terminou uma bem sucedida temporada de ‘Risos e Lágrimas’ – A vida de Lala Schneider (a dama do teatro paranaense), obra na qual interpretou Odelair Rodrigues.
Participação em filmes:
2008: Besouro o filme, com direção de João Daniel Tikhomiroff. O filme conta a história de Besouro, o maior capoeirista de todos os tempos, um menino que, ao se identificar com o animal que desafia as leis da física, desafia ele mesmo as leis da opressão e do preconceito, transformando-se em um herói.
2007: A Balada do Vampiro, (contos de Dalton Trevisan), com direção de Beto Carminatti e Estevan Silva.
2006: Cafundó, filme dirigido por Paulo Betti e Clovis Bueno
2005: Cachorro não, Chichorro, documentário dirigido por Paulo Friebe e Arnoldo Friebe.
Na Rede Paranaense de Comunicação (RPC), dentro do Programa ‘Revista RPC’, participou de dois episódios da série “Causos e Casos”: Eu você e ela (2007) e O Forasteiro (2008).
Mulher negra ativista – Como ativista do movimento União e Consciência Negra de Londrina, Geisa Costa criou e produziu em 1988/1992 os primeiros concursos de beleza negra do norte do Paraná, abrindo espaço para os vários grupos culturais e mulheres negras no disputado mercado de trabalho. Traz ainda, em seu histórico, a coordenação de várias oficinas ligadas ao resgate da cultura negra. Foi tesoureira adjunta da Rede de Mulheres Negras do Paraná. É formada tecnóloga em Massoterapia pela Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Como terapeuta holística atua com massoterapia, reiki, shiatsu radiestesia e florais. É ainda contadora de histórias e facilitadora de oficinas, terapêuticas em escolas, empresas e grupos comunitários.
Leia mais sobre a atriz no blog do Núcleo Paranaense de Cultura Afro:
Besouro leva atriz paranaense Geisa Costa para telena
Ela de novo. Geisa Costa interpreta Odelair Rodrigues
















