COP-15 - "Não há democracia"

COP-15 – “Não há democracia”


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 “Quem decidiu que 30 países escolhidos a dedo podem decidir por 192? Esse processo me chama muito a atenção porque lhe falta democracia”, disse à IPS Angélica Navarro, chefe da delegação boliviana na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15). A negociadora-chefe do Estado Plurinacional da Bolívia se referia à forma como acontecem as conversações para se chegar a um novo pacto climático nesta conferência.

 

A Bolívia denunciou ontem uma tentativa dos países ricos de controlar o resultado das negociações e a “falta de transparência” nas gestões, e cobrou reconhecimento e respeito “pelos direitos da Mãe Terra”. Navarro expressou especial preocupação pelo rascunho de um acordo elaborado pela delegação da Dinamarca que vazou para a imprensa esta semana. Na capital dinamarquesa, países em desenvolvimento criticaram a proposta afirmando que favorece a posição dos Estados Unidos e transfere ao Sul obrigações de reduzir suas emissões de gases-estufa. Também temem uma tentativa de marginalizar a Organização das Nações Unidas do processo negociador.

 

“Me preocupa muitíssimo por duas razões. Primeiro, quem decidiu que 30 países escolhidos a dedo podem decidir por 190? Este é um processo que me chama muito a atenção  porque tem falta de democracia, de participação, de inclusão, de transparência, e é algo com que não estamos acostumados por parte de nossos amigos europeus. Por isso, queremos dizer-lhes que voltem ao caminho democrático”, disse Navarro à IPS. “Também temos muita preocupação pelo conteúdo, pois fala de um só acordo. O que ocorre com o Protocolo de Kyoto. Querem matá-lo? E, segundo, este acordo tem novas obrigações em financiamento, mitigação e adaptação para as nações em desenvolvimento? isto é, temos de pagar pelo dano que eles causaram?’, acrescentou.

 

O Protocolo de Kyoto, cuja primeira fase expira em 2012, não inclui reduções obrigatórias de gás-estufa para o Sul. Washington promove outro contexto no qual se distribui responsabilidades na redução de emissões, e resiste a um tratado de caráter vinculante. Os países que formam a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) afirmaram ontem em uma declaração que o Norte deve assumir os custos da mudança climática. Oferecendo significativos cortes nas emissões e colaborando com financiamento e tecnologia para a mitigação e adaptação no Sul. A Alba é formada por Antigua e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Honduras, Nicarágua, San Vicente e Granadinas e Venezuela.

 

“Os países desenvolvidos, ao terem consumido em excesso o espaço atmosférico e lançado mais de dois terços das emissões, têm uma dívida climática com as nações em desenvolvimento”, disse Navarro ao TerraViva. “Isto pode ser pago de duas formas: a primeira é através de reduções internas substanciais e a segunda é com financiamento adequado e tecnologia. Não com os números que estão pondo na mesa de negociações neste momento”, afirmou. “O que nos preocupa é que as ambições estão muito baixas. As cifras apresentadas são tão baixas que não bastariam realmente para combater a mudança climática”, acrescentou.

 

O embaixador da Bolívia junto à ONU, Sólon Romero Orozca, destacou em entrevista coletiva a importância de reconhecer os “direitos da Mãe Terra”. O diplomata, acompanhado de dois representantes dos povos indígenas, afirmou que o mundo deve reconhecer que a Terra está sendo “escravizada”. Orozca exigiu metas mais ambiciosas, como por um limite ao aumento da temperatura média no planeta entre um e 1,5 grau, e não de dois graus, como se fala nas conversações.

 

“Se dizemos que nossa meta deve ser de dois graus e até 450 partes por milhão (de partículas de dióxido de carbono na atmosfera), isso para a África significa mais de dois graus, significa que vem uma catástrofe”, afirmou. “Hayaya Pachamama!” (pela vida da Mãe Terra, na língua quechua), exclamaram os delegados boivianos ao encerrarem a entrevista.

 

Fonte: IPS/Envolverde

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