70 mil mortos: O Brasil perdeu a guerra para Covid-19

*Por Hermes Silva Leão

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“Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida”, Mahatma Gandhi

Passados 4 meses desde a primeira morte registrada em São Paulo, registros oficiais anunciam mais de 70 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. Esse índice nos autoriza a declarar que nosso país perdeu a guerra para a pandemia. Como se trata de uma crise de saúde que alcançou todos os continentes e praticamente todos os países é possível estabelecer parâmetros que nos facilitam identificar as razões principais desse fracasso brasileiro.

Lógico que um balanço mais preciso e definitivo só será possível quando uma vacina surgir e os efeitos letais do vírus forem anulados. A principal causa da tragédia sanitária do Brasil está relacionada à escolha política feita pelo governo federal e também pela maioria dos governadores e prefeitos. Ao se alinhar à doutrina do chamado “negacionismo”, o presidente Jair Bolsonaro demarcou pessoalmente a derrota inevitável para a doença. Essa constatação se fundamenta principalmente na forma como o presidente desautorizou a condução inicial do Ministério da Saúde. Ao optarem pela escolha mais aproximada com a ciência os dois ex-ministros médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich foram publicamente desautorizados e postos para fora pela obsessão anticientífica do presidente.

Ao firmar sua condução na negação da gravidade da doença, chamado-a de “gripezinha” o mandatário nacional optou de forma covarde de expor o povo brasileiro à face sombria da morte. Um conjunto de falas e atitudes podem ser observadas na cultura da desinformação que contribui para a deseducação da massa, a rejeição pública do não uso da máscara ilustra essa conduta criminosa de Bolsonaro. A manutenção da interinidade do general Pazuello como ministro e a falta de coordenação nacional da crise sanitária do conjunto do ministério militarizado da saúde, é a continuidade da ausência covarde do governo nacional em evitar o aprofundamento e prolongamento da pandemia no meio do povo.

Por sua vez, o poder político nos estados e municípios apresentou dois momentos distintos. Durante o período em que a equipe do ministério da Saúde tinha uma agenda diária com a imprensa, quando um relato era acompanhado de orientação sobre o processo da crise, governadores e prefeitos/as se mostraram alinhados à ciência e bancaram as pressões econômicas contrárias ao isolamento social.

A partir do momento em que Bolsonaro derrotou a linha científica do ministério e politizou a condução da crise, enfraqueceu cada vez mais a força do poder político nos estados e municípios. A decisão, correta, do STF em indicar o poder dos estados e municípios na condução direta da crise foi a senha que o bolsonarismo negacionista aproveitou para lavar as mãos e transferir aos governos locais a responsabilidade pelas consequências da pandemia.

É importante ressaltar que essa falta de coordenação nacional abriu espaço para um vai e vem de medidas regionais que contribuiu para aprofundar a confusão e o desgaste do povo com o isolamento social. É perceptível a pressão do poder econômico no afrouxamento das medidas estaduais e municipais.

Diante da ausência de um planejamento preciso que oriente de forma adequada toda a população brasileira os dados futuros são assustadores. A curva de mortes tende a se manter alta e estimativas indicam a possibilidade do Brasil atingir a marca de 120 mil brasileiras/os mortos/as caso essa ausência de medidas adequadas continue. Países onde a liderança política aliada com a ciência agiram com rapidez e determinação dão exemplos de proteção da vida. Enquanto Brasil e Estados Unidos governados pela idiotice – lembremos que Trump e Bolsonaro são lideranças defensoras da tortura e da morte como gestão de Estado – se mantêm como os dois piores exemplos no combate ao vírus no mundo, nossos vizinhos de América Latina vem demonstrando que a escolha política faz toda a diferença. Enquanto no Brasil o número de mortos chega a 240 por milhão, no Paraguai está em 2 mortes por milhão, na Argentina 20 por milhão, no Uruguai 6 por milhão e na Colômbia 36 por milhão.

Seria possível uma mudança radical que prevenisse a continuidade da tragédia no Brasil? Se depender do governo federal, não mais. Ao anunciar sua própria contaminação e politizá-la na forma negacionista o presidente Bolsonaro lacrou a impossibilidade de revisão metodológica em seu mandato.

Portanto além de denunciar a conduta errática e criminosa dos governantes é importante reforçar a importância do isolamento social e demais orientações das autoridades de saúde. Alias, mesmo com toda a precarização da saúde pública é importante registrarmos que a tragédia brasileira só não está ainda maior em razão do SUS e o compromisso das/os trabalhadoras/es em saúde pública do nosso país que não vem medindo esforços para salvar vidas. Infelizmente, muitos/as profissionais dessa área estão perdendo suas próprias vidas diante da insuficiência de cuidados das próprias autoridades governamentais.

O que fazer com essas lideranças que não vem cumprindo com seus papeis de proteger a vida do povo? Essa reflexão precisa ser feita. Não é possível imaginar que fiquem impunes diante de tantas perdas desnecessárias. Pensar num tribunal popular para o julgamento publico desse povo pode ser uma alternativa.

PS – Nas últimas semanas estive afastado de todas as atividades, inclusive da escrita. Infelizmente fui um dos brasileiros/as a enfrentar pessoalmente a presença do covid-19. Embora tenha consciência e procure exercitar as precauções tomando todos os cuidados não pude evitar essa experiência extremamente desgastante. Agradeço a atenção e mensagens de apoio que recebi e de agora em diante retomamos nossa coluna semanal no Brasil de Fato Paraná.

*Hermes Silva Leão, professor e presidente da APP-Sindicato

Fonte: Brasil de Fato Paraná