Falta de estrutura e formação atrasa tecnologia nas salas

"Os governos colocam o dinheiro da educação em tecnologia, vem equipamento para todas as escolas sem que se conheça a realidade delas" - Heleno Araújo, presidente da CNTE

Com uma rede composta por mais de 180 mil escolas, o uso de tecnologia nas salas de aula do Brasil não é realidade em grande parte das instituições de ensino. Seja por uma questão de infraestrutura ou pela falta de formação adequada para o corpo docente, a realidade, segundo professores, é bem distante da ideal.

Somado a essas questões, o descompasso entre as medidas adotadas pelo poder público e as necessidades da comunidade educacional agravam o cenário de precarização e dificultam a inserção de novos métodos nas escolas.

De acordo com o professor Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), muitas vezes as políticas educacionais são traçadas sem consultar a comunidade escolar sobre suas demandas, o que acaba atrapalhando. A CNTE representa 50 sindicatos de professores e funcionários de todo o país.

— Os governos colocam o dinheiro da educação em tecnologia, vem equipamento para todas as escolas sem que se conheça a realidade delas. Muitas vezes, a escola não está em condições de recebê-los, porque a rede elétrica não sustenta. Não há condições administrativas e nem financeiras de manutenção dos equipamentos — diz ele, chamando a atenção para a precariedade da infraestrutura das instituições públicas.

Dados do Censo Escolar 2018 divulgados em janeiro revelam que, entre as escolas de ensino médio do país, 15% não têm acesso a banda larga. Além disso, 21,9% não têm laboratório de informática e 4,9% não têm acesso a qualquer tipo de internet.

Além da falta de estrutura, professores reclamam da falta de uma estratégia de formação.

— Somos uma categoria que tem idade média acima de 44 anos de idade e que precisaria integrar as disciplinas com as novas tecnologias. Isso exige uma integração de formação e a realização de atividades multidisciplinares, onde a tecnologia contribua com o que já existe — analisa Araújo. — Os sistemas de ensino querem colocar um profissional na escola para fazer atendimento específico para informática, mas essa opção não dialoga com as disciplinas tradicionais.

BOM USO DO CELULAR- Professor de literatura e Língua Portuguesa do Colégio pH, Jessé Castilho, que também participará do Educação 360 Jovem Tech, vive uma realidade diferente na rede privada, mas diz que, em termos gerais, ainda percebe que boa parte dos docentes têm dificuldade de lidar com as novas tecnologias.

—Sendo escola pública ou particular, quando há o acesso a recursos tecnológicos, muitos professores não estão habituados àquele estilo de ensino. As gerações mais antigas foram criadas numa tradição de aulas expositivas. Como os recursos são recentes, é natural que haja uma certa resistência dos educadores, até por desconhecimento —afirma.

Castilho é daqueles que aderem à tecnologia para tornar a aula mais interessante. Ele cria exercícios online e, durante a exposição do conteúdo, os estudantes acompanham a aula respondendo às questões pelo celular. Ao final, ele gera gráficos mostrando a tendência de respostas dos alunos e debatendo os erros.

—É importante pensar que as novas tecnologias podem promover a autonomia e o protagonismo dos alunos. A gente traz o celular para a sala de aula e fomenta o uso responsável do aparelho por parte dos estudantes.

Fonte: CNTE|Globo