Dinheiro desviado da Educação beneficiou Richa e aliados, afirma delator em novo depoimento

Delator disse para a Justiça que esquema planejava desviar até recursos da merenda

Foto: Murilo Ribas/APP-Sindicato

A Operação Quadro Negro, que apura desvios de recursos da construção e reforma de escolas públicas do Paraná durante o primeiro mandato do ex-governador Beto Richa (PSDB), teve novos desdobramentos nesta semana envolvendo integrantes dos Três Poderes.

Em audiência na 9ª Vara Criminal de Curitiba, o dono da construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, relatou como funcionava o esquema de corrupção e revelou nomes de políticos que, segundo ele, se beneficiaram do esquema de corrupção. As informações foram divulgadas pelo jornalismo da RPC e ganharam repercussão nacional.

Entre os citados, além do ex-governador e ex-funcionários de confiança lotados na Secretaria de Estado da Educação (Seed), estão políticos como o deputado federal Valdir Rossoni (PSDB) – ex-chefe da Casa Civil de Richa – os deputados estaduais Ademar Traiano (PSDB) – presidente da Assembleia Legislativa do Paraná – Plauto Miró (DEM) – primeiro-secretário da Casa – e Tiago Amaral (PSB), além do presidente do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), conselheiro Durval Amaral – que é pai de Tiago -, a atual governadora do Estado, Cida Borghetti, e seu marido, o deputado federal Ricardo Barros.

De acordo com as informações, o depoimento foi prestado na semana passada e Souza reafirmou o conteúdo da delação que fez em Brasília em colaboração homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, relator da Quadro Negro na corte. Na Justiça estadual, o processo está na fase de novos interrogatórios de réus. O ex-diretor da Seed, Maurício Fanini, que já está preso em Brasília, é um dos próximos a prestar esclarecimentos.

Confira destaques do depoimento do delator:

:: Beto Richa e Valdir Rossoni – No depoimento, Lopes disse que houve pagamento de propina – relacionada a obras em Bituruna, no sudeste do Paraná – para o assessor do deputado federal Valdir Rossoni (PSDB), Gerson Nunes. Afirmou que chegou a dar dinheiro, em 2014, para ajudar em campanhas futuras do ex-governador Beto Richa (PSDB), do irmão dele e ex-secretário de Infraestrutura e Logística, Pepe Richa, e do filho Marcello Richa.

:: Ademar Traiano (PSDB) – O delator disse que fez quatro pagamentos de R$ 100 mil, em dinheiro vivo, para a campanha de 2014 de Traiano. As entregas das propinas teriam ocorrido na Assembleia e na Casa do deputado..

:: Plauto Miró (DEM) – Segundo o dono da Valor, Plauto cobrou propina para autorizar aditivos aos contratos de obras nas escolas estaduais. Ele afirmou que o deputado cobrou 10% dos R$ 6 milhões repassados a mais à construtora, tendo feito dois pagamentos de R$ 300 mil em dinheiro vivo. “Ele [Plauto] disse: ‘5% pra mim e 5% pro Rossoni’. Eu disse: ‘Tá bom. Da minha parte, eu topo’”, detalhou Souza.

:: Tiago (PSB) e Durval Amaral – Souza disse que fez doação de R$ 50 mil, via caixa 2, para a campanha de Tiago Amaral e que o pai do parlamentar, conselheiro Durval Amaral, teria agradecido pessoalmente o repasse. O construtor afirmou que, em contrapartida pediu para que o então diretor da Seed, Maurício Fanini, não fosse transferido. “Ele [Durval] falou: ‘Pode deixar. Tá combinado’”, disse o delator.

:: Cida Borghetti e Ricardo Barros – Eduardo Lopes de Souza disse que negociou o pagamento uma mesada de R$ 15 mil a Juliano Borghetti, irmão da governadora Cida Borghetti (PP), em troca de cargo na vice-governadoria. Segundo ele, o acordo durou três meses, foi feito na presença de Ricardo Barros – na sede do Partido Progressista, em Curitiba -, e Cida teria agradecido pessoalmente por ter “resolvido o negócio do Juliano”.

Dinheiro da merenda – A reportagem também divulgou trechos do depoimento em que o delator afirma que, além de fraude com os recursos destinados para construções e reformas de escolas, o desvio de dinheiro da merenda também estava nos planos dos acusados. Mas, segundo Eduardo Lopes de Souza, o esquema só não foi para frente porque foi descoberto pela Polícia Civil sete meses após o início do segundo mandato de Richa.

De acordo com o delator, a fraude deveria se expandir em um segundo governo de Richa e, para isso, Maurício Fanini deveria ocupar a presidência da Fundepar – autarquia que administra toda a rede física escolar do Paraná -, dando mais poder para um dos principais agentes do esquema, segundo o delator.

“O Fanini me chamou e falou para mim: ‘Eduardo, não vamos mexer só com obras, você vai cuidar para mim da merenda também. Você vai acertar com os empresários da merenda, você vai ser meu cara’”, disse Souza no depoimento. O dono da Valor disse que conversou sobre o assunto com o presidente da Assembleia, Ademar Traiano.

O outro lado – Em resposta aos questionamentos da reportagem, os citados pelo delator negaram todas as acusações.